Sou colonizada. Minhas referências foram povoadas pelo pensamento civilizatório europeu e, isso, antes mesmo de chegar aqui. O pensamento de homens europeus brancos, esse modo de ver e experimentar o mundo (e a arte) organizou meu olhar e domesticou meu corpo e meu gesto desde sempre. Era o esperado.
Desse lugar de colonizada, com os instrumentos mesmos dessa colonização, com as armas da cultura e da civilização ocidental, posso me descolonizar? Posso descolonizar daqui do centro eurocêntrico, de dentro das vísceras do monstro sabendo que, se matar todos os microorganismos colonizadores, crio o risco de uma situação asséptica e pura que é ainda mais perigosa? A solução é a mestiçagem.
Como das entranhas desse corpo e dessa mente colonizadas posso retraçar o caminho em direção de minhas origens? Como escavar esse caminho, extrai-lo, arrancá-lo sem que morra, apartado de tudo que o contorna? Assim trato de visitar essas minhas bases européias brancas civilizatórias colonizadoras: a arte, o desenho, os cânones, a mitologia, a tragédia grega, a psicanálise. Em cada uma delas, um rasgo, uma brecha para que surja, para que se misture, uma despurificação desde dentro. A mestiçagem é a possibilidade da alegria.
Buscar na mitologia e na tragédia grega as moiras, as erínias, as hárpias, as górgonas. Buscas na psicanálise os restos, os resquícios, os vestígios. Buscar na história da arte os detalhes, os pedaços, os fragmentos. Buscar no cotidiano as banalidades, as miudezas, as insignificâncias.
Os lugares fáceis, imperativos e estridentes da sociedade de consumo ou os lugares discretos e evanescentes das origens e da memória? Uma obra que oscila entre os tickets de caixa, as etiquetas, as mensagens impessoais dos biscoitos da sorte, as previsões astrológicas e a busca das raízes nos vestígios das avós, das ancestrais mitológicas, das erínias e das moiras. O caminho do fazer, da mão, do tempo lento, do trabalho do gesto repetitivo sobre o papel, o caminho do desenho e os automatismos, a escrita impessoal, a impressão térmica, sem rastro algum da ação humana. Como se encontrar nessa dicotomia senão pela construção de uma poética do verso?
Anverso e reverso.
Frente e verso.
Recto e verso.
Verso.
Mesmo no mais maquinal insiro algo, uma subversão da utilidade, uma transgressão das palavras. Tentativa de re-humanizar, retirar do uso, do consumo, na esperança de que surja outra coisa, na esperança de que em algum ponto me reencontre com aquele outro gesto, com as texturas, com a ação da natureza. Tentativa de forçar o mais desumanizado até o ponto de origem, ponto de criação de origem, ponto da narrativa. Invenção de um ponto.
Existe uma técnica chamada «caviardage», que consiste em cobrir palavras, imagens. Cobrir para revelar, velar para desvelar, acrescentar camadas para descobrir, acrescentar para escavar, encher para esvaziar: contorno do vazio, ficcionalização da vida. As origens não reaparecem, o que aparece é a obra.
Invenção.
Mestiçagem.
Montagem.

erínias – terra (díptico):
-terra molhada e terra queimada, aquarela, pastel seco e carvão sobre papel aquarela 300g/m2 21×29, 2024-25.
-papel 100g/m2 com poema em francês datilografado, 21×29,7cm ,2024
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