série – desenho, aquarela, bordado e texto
Quando o livro «E depois?» foi publicado, em 2025, pela Casa Amitié editorial, pedi às pessoas que quisessem que enviassem uma foto de uma de suas avós. Porque o livro trata de uma troca de cartas entre duas mulheres, suscitada por duas fotos, uma de minha avó e outra enviada por uma artista durante uma residência, e da qual não conheço nada, e que sua escrita coincidiu com esse retorno das artes em meu percurso, pareceu-me evidente esse pedido no momento do lançamento. A partir desse painel de mulheres – e suas histórias narradas brevemente ou imaginadas – começo a construir uma árvore genealógica ancestral daquelas que nos precederam e que permitem que, hoje, façamos o que elas não puderam.
A série «Vestígios» viaja ao recomeço de minha caminhada em artes visuais e aos esboços que colocavam em relação os rostos das avós e a ideia de «survivances» de Didi-Huberman ou de reminiscências de Freud. Uma busca pelas origens – ou sua ficcionalização – após um percurso que articula a busca do lugar em terras estrangeiras com o encontro do pertencimento possível, à partir da imersão na natureza do lugar. Fazer com a natureza reconecta às origens, criadas e escavadas em papel e em memórias. É a invenção da ancestralidade possível, aquela da terra de quem conhece o desterro.
Os desenhos, realizados em grafite e marcador preto sobre papel, sempre em 10x10cm, são parcialmente cobertos pela aquarela que revela e oculta, deixando fragmentos para serem adivinhados, inventados. Cada avó é desenhada ao menos duas vezes, uma das quais acompanha o livro da pessoa que enviou a imagem. Essa série é exposta, n’A Casa Tombada, de agosto a outubro de 2025, sob o formato da instalação «Vestígios: avós – 1º tempo». Ali, cada imagem é coberta / velada por um papel vegetal em que se encontram escrito um poema.
Para o prosseguimento dessa pesquisa, construo múltiplos com cada imagem, persistindo na invenção dessas origens através da construção de relicários. Cada avó, cada ancestral é redesenhada 5 vezes, o desenho a cada vez mais incompleto e fragmentado, como um percurso que vai do fim ao começo, uma espécie de escavação às avessas. A boca é a primeira que desaparece, refletindo o silenciamento a que foram submetidas. Paradoxalmente, é dessas bocas que saem fios pretos – linhas – palavras – que unem os desenhos uns aos outros e que sustentam, do lado de fora da moldura-prisão a única imagem completa de cada uma delas, pendurada no vazio, frágil, amarrada com alguns poemas escritos em papel vegetal. Uma genealogia construída. Os desenhos «internos» estão postos sobre papel cobre, prata ou dourado, fazendo referência aos relicários religiosos, e a moldura preta os encerra como se fosse um sepulcro. O desenho completo que pende do lado de fora, amarrado aos fios e aos poemas, cria o contraponto possível ao silenciamento e ao apagamento, a narrativa que inventa e constrói.





