costurar reminiscências

Aqui estou, entre a espera e o agora, os fios da vida puxados desde o ponto em que se perderam, deram um nó e eis uma segunda chance. Revisito o passado como quem redescobre os retalhos perdidos de uma colcha da qual não se lembrava. Penso em imagens que se alinhavam.

Os livros, a escrita, o desenho, dez anos em suspenso até a vida trazer de volta tudo o que ficou inacabado. O luto não realizado, o abandono da língua materna, a perda da história. Há dez anos, eram o corpo, a materialidade, a memória e o ornamento minhas obsessões de pesquisa, imagens que flutuam como pontos de luz que apontam uma direção.

Retorna o corpo que caminha, a materialidade da memória nos vestígios e nas reminiscências, retorna o ornamento na pintura e no desenho, retorna a escrita, a primeira viagem e a descoberta de uma outra margem da vida. Desenho e escrita tornam-se enfim um único gesto. A vida, que parou em um desses pontos que agora visito em caminhos tortuosos frutos de convites inusitados, primeiro lastro de transcendência antes de me perder em um misticismo ordinário, primeira língua estrangeira inacessível a não ser pela imagem, primeira imagem que pareceu convidar para um mergulho além das aparências. 

A escrita e o desenho trouxeram de volta o corpo e a memória, todos os fios confluindo para esse agora que oscila entre deslumbramento e con-fusão. Do que é feita essa espera quando todas as caixas são abertas e remexidas e aquilo que se encontra é a injunção de fazer, retomar os fios e tecê-los indefinidamente?


erínias – pintura e desenho sobre papel aquarela 300g/m2, 21×29,7cm, sobre papel com texto impresso, 21×29,7cm , 2024 .

Você encontra mais de meus experimentos em escrit’imagem por aqui.