Artista, escritora, psicanalista, vivo desde 2011 na França e desde 2013 na região dos Pirineus- Orientais, fronteira com a Espanha, em um pequeno vilarejo de 250 habitantes chamado Calce. O contato cotidiano com a paisagem bruta, seca e áspera do cerrado mediterrâneo, a garrigue, inspirou-me a retomar a escrita, assim como o desenho e a pintura, até transformá-los em um mesmo traço.
Com o objetivo de desenvolver um trabalho de arte contemporânea em zona rural, fundei a associação 3C: Calce Culture Contemporaine em 2019, que realiza residências de artistas e intervenções de mediação cultural e artística para todo tipo de público. Esse projeto conta com o apoio do Ministério da Cultura, da Região Occitania e do Departamento dos Pirineus-Orientais, sendo rapidamente reconhecido como referência na implantação de uma dinâmica cultural em artes visuais em zona rural.
Essa experiência contribuiu para que, enquanto artista, desenvolvesse uma pesquisa pessoal na interface entre artes visuais e literatura, centrada na questão dos vestígios e das reminiscências, a partir dos quais me interrogo sobre o olhar e o lugar do estrangeiro, inserido em uma paisagem natural que se revela a via privilegiada à partir do qual chego a pertencer.
Do ponto de vista estético, privilegio o papel e o traço, buscando na interação entre meu gesto e os elementos da natureza circundante um diálogo que faz com que a obra seja fruto de muitas mãos. O vento, a terra deixam suas marcas sobre o papel e testam assim os limites de suas possibilidades e de sua resistência, criando ali uma tridimensionalidade táctil e texturizada, aportando muitas vezes um caráter escultural à obra. A palavra tem suma importância, participando ao processo de escavação e desvelamento, tanto quanto do apagamento que os elementos e o tempo lhe impõem. Trata-se de um trabalho de arqueologia, no qual os materiais sobre o papel se pousam sem descansar, busca interminável por uma essência última e redentora que escapa sempre.
(cv)
